Diário do Peregrino

“Juventude, fé e vocação”
Jovens peregrinos em busca do rosto de Deus

Caros Peregrinos, encerramos mais uma Marcha Franciscana de Bacabal a Lago dos Rodrigues e a sensação é de dever cumprido! Cumprimos com o nosso objetivo da busca e do encontro do rosto de Deus!

Foram 4 dias de caminhada, entre dores, risos, cansaço, alegria e momentos fortes. Caminhamos sob o sol quente, com o clima seco ajudando a nos desgastar, mas cada rosto esperançoso e cheio de amor e de vida que encontrava nas comunidades, me reerguia e me impulsionava para mais um trecho da caminhada.

Vivi intensamente cada momento, a quinta-feira que nos remonta à Eucaristia, a sexta-feira; o dia mais puxado de caminhada, a via-sacra e a contemplação da cruz; no sábado vivemos a espera juntamente com Nossa Senhora e o Domingo, celebramos a Páscoa Semanal com a chegada jubilosa no santuário de São Francisco de Assis em Lago dos Rodrigues.

O que há nas próximas páginas são um resumo das emoções sentidas em cada dia, da experiência vivida, e do sinal da transformação do coração através da fé e da devoção. Sei que não somente eu, mas todos os meus irmãos de caminhada, peregrinos e peregrinas, após esse encontro, também foram iluminados por essa face divina.

Alguém uma vez me contou que não é possível encontrar Jesus Cristo e continuar sendo a mesma pessoa, e eu acredito plenamente nessa convicção: após buscar e encontrar o rosto de Cristo, sinto-me uma nova criatura, resplandeço a face de Cristo e tomo a atitude de testemunhar em minha vida a graça desse encontro.

Paz e bem!

Como peregrino de primeira viagem, fazia mais de uma semana que eu me organizava para esta viagem, pensando no que deveria levar, como fazer caber tudo na mochila (deveria levar mochila ou mala?): roupas, roupa de cama, bíblia, terço, material de higiene pessoal… tudo em uma mochila? Quase enlouqueço, mas consegui!

A primeira peregrinação foi para Bacabal, a ansiedade batendo à porta e a expectativa me dominando: quem são as pessoas que irei encontrar? Nos daremos bem? Será se vou conseguir os primeiros quilômetros de caminhada? Será se consigo chegar em Lago dos Rodrigues?

Chega o grande dia! Muita gente chega ao CEFRAM, gente  várias cidades do Maranhão e do Piauí: crianças, jovens, adultos, idosos… peregrinos e pessoal de apoio. Meu Deus, quanta gente envolvida! Começa o chek-in e recebo meu kit, o guia e todo o material do peregrino e começo a interagir com outros peregrinos. Uma voz anuncia: é hora de ir para os grupos, e só então me dou conta da imagem de um patrono no meu crachá que indicou a qual grupo eu fazia parte.

Algo me chamou a atenção: às 15h, hora da misericórdia, o badalar do sino marcou o início de uma diferente liturgia eucarística que iniciou com a Leitura Orante da Palavra, a primeira de muitas. Fomos conduzidos por uma acompanhante espiritual, nosso pai ou mãe espiritual durante a Marcha. Meia hora depois, todos juntos no bosque do CEFRAM, continuou a missa em seu rito eucarístico.

Benção dada, nos abastecemos com o lanche e fizemos os devidos alongamentos propostos pelos educadores físicos. Pronto! Podemos começar a caminhada. A sensação de empolgação aos poucos foi sendo substituída pelo cansaço, já no primeiro dia. A música acaba, agora se ouvem os sons dos carros na estrada, os sapos coachando, a noite nos cerca com a sua capa azul escura e pintada por estrelas, o silêncio da noite vem e nós tentamos diminuir o caminho com a conversa…

Chegamos ao Povoado da Aldeia, um momento sublime de Adoração ao Santíssimo nos aguarda. Após, vem o jantar e só então podemos tomar o merecido banho e descansar para reiniciar o segundo dia com novo ardor.

Paz e bem!

O sol ainda nem havia raiado e eu já havia tomado banho com a água muito gelada, mas não desanimei, que bom que ajudou a despertar o sono. Na frente da Igreja, iniciamos com o primeiro momento de mística e a comunhão eucarística.

Nos dirigimos até o Jatobá onde tivemos a primeira parada para um rápido lanche e continuamos a caminhada até o povoado São João onde tivemos uma parada maior para o almoço, descanso e cuidados médicos para quem precisasse. O dia estava prometendo, ainda era 11 horas e o cansaço já dominava. Retomamos às 14h mais ou menos com momentos de confissão, conversas pessoais, leitura orante da Palavra de Deus e bênção do Santíssimo Sacramento. Mais um lanche e alongamento. A caminhada continua…

Para minha surpresa, ouvimos um som gravado, iniciava o que o Guia do Peregrino denominava de Via-Sacra da Juventude. Para o trecho que se seguiu, foi bem compatível com o momento. Muitos desistiram no caminho, tomados pelas dores, pelo cansaço… mas a chegada em Santa Teresa, o encontro com o crucificado fez toda a diferença: a emoção tomou conta de nossos corações. Eu não conseguia compreender porque as lágrimas escorriam pelo meu rosto ao ouvir a oração que São Francisco fez diante da Cruz de São Damião, cantada várias vezes, só sei que eu queria estar ali, aos pés do meu Senhor, do “amor não amado”, do “sumo bem”.

Na escola, o cheirinho nos chamava, era o jantar convidativo oferecido pela comunidade. Após um merecido banho, o repouso mais merecido ainda… a jornada continuaria no dia seguinte.

Paz e bem!

Já iniciei o terceiro dia com menos forças do que os dois primeiros, mas não é hora de desistir, o trecho maior já havíamos caminhado. A oração da manhã já nos guiava para os acontecimentos do dia, Nossa Senhora, nossa mãezinha seria lembrada durante todo o sábado, dia dedicado a ela.

Caminhamos até Lago da Pedra. Na chegada da cidade fomos acolhidos por uma banda que marchou conosco até a Igreja Matriz de São José. Durante o trajeto vários jovens mostravam seus talentos, sua arte: capoeira, teatro, música, dança… esse é o rosto da juventude, o rosto de Deus! Na Igreja, a mística foi ímpar: gerações de uma mesma família resplandecia o amor, a união, eram o sinal da verdadeira aliança de Deus para com os homens. Foi lindo ver o pai de família carregando nos ombros a graça de ser pai: seu filho.

Fomos conduzidos até o sítio da paróquia onde foi servido um delicioso almoço e pudemos tomar banho e descansar. Reiniciamos com mais uma Leitura Orante com o trecho que fala das virgens e das lamparinas, um sinal para não deixarmos o nosso óleo acabar antes do encontro definitivo com o Noivo.

Marchamos até Lago do Junco. O evento que se seguiu foi algo inexplicável. Como é possível que ao som da animação do “povo do Junco”, todo o canso tenha se esvaído? Não havia mais dores, não havia mais calos nem reclamações, Deus fez surgir um novo ânimo escondido no fundo do coração para corrermos, pularmos, dançarmos e nos animarmos até a Igreja de Cristo Rei. Foi lindo! Foi maravilhoso!

Encerramos o dia com uma maravilhosa dramatização na praça da Igreja sobre as bem-aventuranças. Muitos símbolos, todos muito bem vestidos… simplesmente perfeito!

Descanso… ainda há alguns quilômetros de caminhada…

Amanheci com os sentimentos meio controversos: feliz por estar próximo de Lago dos Rodrigues, mas triste porque a Marcha já estava chegando ao fim.

Saímos de Lago do Junco e tomamos café no povoado Pote, mesa farta!

A chegada em Lago dos Rodrigues, também foi muito animada, teve até um flash mob feito pelos jovens da cidade. Mas algo maior e mais bonito estava para acontecer. Quando chegamos em um determinado ponto da cidade, nos deparamos com algo que não eu não quis acreditar, uma tenda com o Santíssmo exposto! A euforia se converteu automaticamente em oração. Fr. Bernardo carregava o ostensório em direção à Igreja, em procissão, sob uma tenda carregada por quatro frades. O povo compenetrado acompanhava com grande devoção. Ao toque de sinos e tendo o caminho aberto pelo incenso, chegamos aos portões da Igreja. Retiramos os calçados dos pés e subimos por um belo tapete preparado especialmente para este momento!

Mais lindo ainda foram as crianças vestidas de Francisco e Clara cantando hinos franciscanos de louvor a Deus! Na porta da Igreja a bênção do santíssimo e a unção por gente humilde, não teve como não chorar. Deus estava revelando de forma mais concreta o seu rosto.

A missa teve partilha do pão, e a âncora que se tornou um tal. Uma homilia profunda proferida pelo Provincial e palavras de comoção do visitador Fr. João Carlos, completaram a certeza que crescia em meu peito: valeu a pena empreitar esta caminhada aqui aqui!

Agora, me restam as lembranças e a possibilidade de escrever esta experiência e compartilhar com vocês. Retornei para casa com a sensação de que quero voltar no próximo ano.

Paz e bem!

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